Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Nunca discorri publicamente sobre o “caso Maddie”. Por várias razões, a principal das quais a de prudência mínima. Sabendo pouco, sei o suficiente para ter a noção que não há jogo menos aconselhável e mais perigoso do que tirar conclusões sobre processos que não se conhecem. Este é um dos mais deprimentes desportos nacionais, que tem tido continuidade noutros casos, como o “caso Esmeralda”. Todos julgam, todos condenam, todos sabem com a superioridade da opinião o que é e o que não é. Todos manipulam até ao limite do insuportável. A cara de mau ou de bom, a sisudez ou o sorriso de orelha a orelha, as lágrimas ou a sua ausência, deixaram de ser uma naturalidade para passar a ser prova de culpa ou de inocência. Numa palavra: um nojo.

 

Não é hoje que vou quebrar a regra. Não sei nada sobre o processo nem sobre a verdade. Vou é falar da Justiça e por favor retirem as legendas com os nomes do caso. Um ano. Um ano com um inquérito aberto sem resultados, mas com arguidos, sem provas, mas com livros, sem fim à vista, mas com uma brigada de polícia. Pai e mãe de uma criança são arguidos. Isto é, suspeitos. De quê? Nem a polícia sabe. Ninguém sabe nada. E não acontece nada. Num país decente, uma coisa aconteceria: o inquérito seria arquivado. Só cá as autoridades de investigação criminal acham normal, perante a indiferença cívica e judiciária geral, que um cidadão seja arguido, isto é, suspeito, para a eternidade. Um ano. De nada e de coisa nenhuma. Desculpem, falso: um ano de directos televisivos, de debates de horas a fio sobre Maddie, de manchetes sobre Maddie, de diários de Maddie, de fotos de Maddie, de repetições até à náusea comunicacional das mesmas fotos, das mesmas manchetes, dos mesmos debates. Mas nada. Mais nada.

 

(Publicado na edição de hoje do Democracia Liberal)



publicado por Jorge Ferreira às 01:08 | link do post | comentar

2 comentários:
De JPG a 2 de Maio de 2008 às 17:05
Neste caso específico, parece-me que "um ano" - e, por sinal, isso não é nada se comparado com o que é "normal" - sem que nada se saiba, tem por objectivo, precisamente, a criação de condições psicológicas (na chamada "opinião pública") para o despacho de arquivamento. Eles são ingleses, não escuteiros da Parvónia. Aliás, isso ainda não sucedeu porque seria demasiadamente escandaloso fazê-lo com tão "pouco" tempo passado desde a sua (deles) constituição como arguidos. Há muito boa gente que leva com esse tipo de "pena suspensa" durante 5, 10 ou mais anos. Se não me engano, a recente revisão do CPP reduziu o prazo máximo a... 8 anos!


De Anónimo a 2 de Maio de 2008 às 15:55
É o negócio, da desgraça alheia.

Independentemente de culpados, arguidos ou suspeitos, um facto é verdadeiro:
uma criança desapareceu, e a Justiça (pelo menos a dos homens) nada resolveu; assim como não resolve o desaparecimento de tantas outras crianças.


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