Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007
Ainda não percebi por que razão o PCP escolhe deputados para as listas. Candidatos do PCP podem ser quaisquer cem ou duzentos, desde que assinem a renúncia em branco, tornando-se, assim, permanentemente amovíveis, como os tectos falsos ou as paredes em pladour. Sabe-se até que nem o Secretário-Geral é essencial. Sim, Jerónimo de Sousa esclareceu-nos esta semana que também a ele o Partido pode dispensar e, consequentemente também assina a renúncia em branco. Não se sabe bem para entregar a quem, se vier a ser o caso. Ou melhor, sabe: ao Partido. Tudo é devido ao Partido.

Como eu costumo dizer, o PCP faz, de vez em quando, um enorme favor à democracia ao lembrar-nos que se trata de um partido puramente totalitário, anti-democrático, que só joga o jogo da democracia representativa porque é obrigado a isso. Por isso as pessoas não contam. Não contam os métodos. Não contam os meios. Conta só o Partido.

Do episódio da expulsão de Luísa Mesquita resulta uma fotografia feia em que todos posam excessivamente mal, agravando a credibilidade do funcionamento dos partidos, da instituição parlamentar e da democracia.

O PCP sai mal porque, afinal de contas, tem deputados precários. De tanto falar de trabalho precário, inspirou-se e aderiu ao sistema. Sai mal, porque trata os deputados como coisas e os votos dos eleitores como propriedade sua, de que dispõe a bel-prazer e que pode ser colada a qualquer pessoa. Desrespeita os próprios eleitores que lhe confiam o voto.

Luísa Mesquita sai pessimamente. Durante anos assistiu a purgas, perseguições e expulsões, calada, obediente e provavelmente comodamente sentada no seu palanque parlamentar. Nem um dedo levantou, nem uma palavra se lhe ouviu, nem um sussurro de indignação lhe ocorreu. Agora, que lhe tocou a ela, revoltou-se e clama traição. Tarde demais. O que dizer de uma pessoa que assina o papelinho que ela de livre vontade (presumo…) assinou e depois diz que é um pró-forma? Ou assinou para não cumprir, isto é, com reserva mental, ou então, se assinou convictamente assinou nesse momento uma declaração de desprezo pelos eleitores que a elegeram e que tanto diz respeitar.

Por fim: a confissão da tentativa de suborno legal. Jerónimo de Sousa informou-nos que o Partido tentou comprar o cumprimento do compromisso escrito da deputada através de subvenções vitalícias que lhe garantissem um bom “estatuto material”. Eis a costela capitalista do Partido no seu pior, ou seja no papel de corruptor de vontades. O caso Luísa Mesquita é um manual de tudo o que repugna na política.


(publicado na edição de hoje do Semanário)


publicado por Jorge Ferreira às 00:05 | link do post | comentar

1 comentário:
De António de Almeida a 30 de Novembro de 2007 às 00:17
-O PCP modernizou-se. Aderiu á moda dos contratos a prazo! Deve ter aderido á metodologia do PC Chinês, converter-se ao capital, para usar os lucros obtidos, na construção do socialismo! Mais a sério, as declarações de renúncia em branco, não são emitidas na conservatória da Soeiro Pereira Gomes, mas sim na Rua de S.Caetano. Na S.P.G., emitem-se declarações disponibilizando o mandato ao partido, quando este assim o entender, seja lá o que isso signifique!


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