Quinta-feira, 20 de Março de 2008
Reina o maior silêncio dos responsáveis políticos portugueses sobre a crise financeira mundial, que teve o seu epicentro no crédito hipotecário norte-americano.

Sócrates não quer falar de dificuldades, já que no horizonte tem umas eleições legislativas para ganhar e sabe de antemão que o eleitorado não gosta de más notícias. Já lhe basta ter de justificar avanços e recuos consoante a rua lhe dita.

Cavaco Silva, economista gabado, político consabidamente prudente e com aquele sentido de equilíbrio, convergência, cooperação ou assessoria institucional, consoante os casos, que o caracteriza, guarda de Conrado o prudente silêncio.

A oposição, entretida com quotas e com o fundo azul, o PSD e investigações criminais, o CDS, não diz uma palavra, não exige um esclarecimento, não propõe uma medida para nos prepararmos para o impacto da crise.

Os investidores, preocupados, regressam ao ouro, o eterno ouro, que assim vê também os seus preços subirem face ao aumento da procura. A moeda perde a confiança do mercado, debilitando-se como meio de riqueza. O que é paradoxal, face à inaudita valorização do euro face ao dólar.

As notícias, essas desmancha-prazeres, é que não páram. O petróleo a subir desmesuradamente, o euro sempre a galgar o dólar, as imobiliárias sem trabalho (só em Espanha o ano passado metade delas fecharam), o custo do dinheiro a aumentar (o que será dos bancos no dia em que tiverem nas mãos milhares de casas para vender devido ao incumprimento dos empréstimos? E a quem venderão?).

Isto tem um nome: crise. A palavra proibida. Uma crise que, talvez pela sua origem, afinal de contas parece ter começado no longínquo Ohio, onde, pasme-se!, não há só primárias para a Casa Branca, mas também economia, parece estar longe e não nos afectar. É talvez essa a ilusão dos grandiloquentes políticos domésticos.

Esta semana chegou o atestado de veracidade da crise que faltava. Aquela de que ninguém falava, foi finalmente reconhecida e falada. "A actual crise financeira nos Estados Unidos vai ser verdadeiramente considerada como a mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial". A frase é de Alan Greenspan, que esteve à frente da Reserva Federal americana de 1987 a 2006.

As declarações de Greenspan geraram compreensivelmente inúmeras reacções políticas um pouco por todo o lado, incluindo na União Europeia. Excepto em Portugal. Por cá, faz-se de conta que a crise não existe. Apesar da magreza dos indicadores económicos, o discurso oficial do Governo é fazer de conta que estamos imunes à crise e no caminho certo. Entretanto, o Governo prepara-se para montar grandes operações financeiras necessárias à construção do novo aeroporto e do TGV. Se a crise durar, é legítimo perguntar qual o impacto que ela terá nesses investimentos. Mas também sobre isso, o Governo, nada diz. Os Governos, afinal, não se fizeram para grandes trabalheiras.

(publicado na edição de hoje do Semanário)
(Foto)

tags:

publicado por Jorge Ferreira às 11:24 | link do post | comentar

JORGE FERREIRA
Novembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9

20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


ARQUIVOS

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

subscrever feeds
tags

efemérides(867)

borda d'água(850)

blogues(777)

josé sócrates(537)

ps(339)

psd(221)

cavaco silva(199)

pessoal(182)

justiça(180)

educação(150)

comunicação social(139)

política(137)

cds(126)

crise(121)

desporto(120)

cml(116)

futebol(111)

homónimos(110)

benfica(109)

governo(106)

união europeia(105)

corrupção(96)

freeport de alcochete(96)

pcp(93)

legislativas 2009(77)

direito(71)

nova democracia(70)

economia(68)

estado(66)

portugal(66)

livros(62)

aborto(60)

aveiro(60)

ota(59)

impostos(58)

bancos(55)

luís filipe menezes(55)

referendo europeu(54)

bloco de esquerda(51)

madeira(51)

manuela ferreira leite(51)

assembleia da república(50)

tomar(49)

ministério público(48)

europeias 2009(47)

autárquicas 2009(45)

pessoas(45)

tabaco(44)

paulo portas(43)

sindicatos(41)

despesa pública(40)

criminalidade(38)

eua(38)

santana lopes(38)

debate mensal(37)

lisboa(35)

tvnet(35)

farc(33)

mário lino(33)

teixeira dos santos(33)

financiamento partidário(32)

manuel monteiro(32)

marques mendes(30)

polícias(30)

bloco central(29)

partidos políticos(29)

alberto joão jardim(28)

autarquias(28)

orçamento do estado(28)

vital moreira(28)

sociedade(27)

terrorismo(27)

antónio costa(26)

universidade independente(26)

durão barroso(25)

homossexuais(25)

inquéritos parlamentares(25)

irlanda(25)

esquerda(24)

f. c. porto(24)

manuel alegre(24)

carmona rodrigues(23)

desemprego(23)

direita(23)

elites de portugal(23)

natal(23)

referendo(23)

apito dourado(22)

recordar é viver(22)

banco de portugal(21)

combustíveis(21)

música(21)

pinto monteiro(21)

bcp(20)

constituição(20)

liberdade(20)

saúde(19)

augusto santos silva(18)

cia(18)

luís amado(18)

todas as tags