Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Os portugueses preparam-se mais uma vez para elegerem um Primeiro-Ministro. Não, não me enganei nas palavras. É isso que se vai fazer na prática. O resto são pormenores que vão atrás dessa eleição principal. É no próximo dia 27 de Setembro e, segundo as agendas oficiais essa eleição realiza-se pelo método de eleições legislativas, em que supostamente se elegem 230 deputados à Assembleia da República.

 

Nunca como agora a distorsão do sistema político português está tão à vista. Ninguém sabe, nem quer saber, quem são os personagens que vamos sentar em S. Bento para exercer o poder legislativo e o poder de fiscalizar o Governo. Apenas tratamos de olhar para a televisão e escolher entre Sócrates e Ferreira Leite para a função. Foi a isto que chegámos trinta e cinco anos depois da instauração de uma democracia de partidos.

 

Se houvesse verdade na democracia formal mais valia criar uma eleição própria, específica e única para essa função. O cidadão que se propusesse governar o país apresentava-se a votos e os eleitores escolhiam. Era mais transparente e mais saudável do que estar a eleger alguém para uma espécie de cargo unipessoal através do destino de candidatos a outras funções institucionais.

 

O país deixa-se embalar neste reducionismo empobrecedor e decadente. Como todos os regimes que estabilizam e se consolidam também a democracia portuguesa deixou de se questionar e adormeceu à sombra das entorses que ao longo destes anos o sistema político tem vindo a provocar na vida concreta das instituições.

 

A discussão quase sempre acaba em diferenças de estilo, de carácter e de especificidades de feitio. É ver os comentários aos duelos televisivos em curso. Fulano encostou beltrano às cordas, beltrano foi mais assertivo que sicrano, sicrano deixou-se enredar na conversa do outro e assim sucessivamente. Discute-se quem é mais arrogante, quem é mais dialogante, quem é mais moderno ou quem é mais passado. Raramente quem é mais competente ou quem sabe melhor o que quer e como lá chegar. As ideias, os projectos, as medidas, como usa dizer o tecnocrático Sócrates, são reduzidas a pó e cinza. O que o país precisa, os objectivos que deve ter, as reformas que são necessárias, as alternativas de organização da sociedade, são secundarizadas pelo debate pessoal.

 

Assistimos, pois, a uma luta pelo poder. Mas a uma luta pessoal. Nessa luta, gastam-se e desgastam-se as palavras que chegam a perder o seu sentido e força originais para se transformarem em slogans vazios e sem conteúdo. Sem ninguém dar por isso, é assim que vai o sistema, cada vez mais vazio e sem conteúdo. Perante a indiferença geral.

(publicado na edição de hoje do Semanário)

 



publicado por Jorge Ferreira às 14:08 | link do post | comentar

1 comentário:
De AT a 4 de Setembro de 2009 às 14:29
Também por essa razão, mais valia eleger-se directamente o Presidente/Chefe do Governo.

Reduzindo a corte ficava tudo mais prático, mais funcional, e até mais barato.


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JORGE FERREIRA
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