Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

A Europa em peso queria mesmo era ter votado nas eleições presidenciais americanas. Os americanos não têm uma história milenar e gostam de preencher a lacuna comprando monumentos antigos na Europa para os montar piéce par piéce nos seus ranchos. Os europeus, que não querem gastar dinheiro com ninharias como a defesa, gostariam mesmo era de votar nas eleições americanas, onde sentem que se decide muito do futuro da Humanidade. É uma relação esquisita mas é mesmo assim.

 

Ora, depois de oito anos de Bush, as esquerdas europeias julgaram ver em Obama uma espécie de reencarnação de Lenine, mas eleito por voto popular, a comer hamburger e a beber coca-cola, pequenos vícios imperialistas toleráveis em tão arrojada alma presidencial que se avizinhava. Numa palavra, o Presidente perfeito para o mundo. Os europeus não votaram, mas também não foi preciso porque Obama ganhou na mesma. O pior ainda estava para vir.

 

Subitamente as loas a Obama cessaram nas crónicas, nos blogues, nas conversas de café dos recém-especialistas em americanologia, diplomas obtidos na leitura dos sites americanos sobre política e nos blogues americanos credenciados, quais jornalistas, para cobrir as primárias e as secundárias e as terciárias norte-americana.

 

Esta semana, Obama, que afirmou querer matar Osama Bin Laden durante a pré-campanha e que cometeu várias gaffes tal e qual o bronco Bush, escolheu a sua equipa para governar o mundo, ou sejam os Secretários de Estado Hillary Clinton e Robert Gates e o conselheiro de segurança nacional Jim Jones. Um susto para as esquerdas atónitas, ainda na ressaca da vitória.

 

Por junto, Obama serviu-lhes dose cavalar. Hillary é uma espécie de falcão fêmea em matéria de política externa. Votou a favor da invasão do Iraque e afirmou preto no branco que invadiria o Irão se necessário. Ora toma. Robert Gates é, nada mais nada menos do que o actual Secretário da Defesa de Bush, sucessor do célebre Rumsfeld. E Jim Jones foi tão-só comandante supremo da NATO.

 

Pois é: na América a política tem razões que a razão desconhece e não, não é um alinha recta, ou seja, o caminho mais curto entre dois continentes. Obama é americano e no catálogo americano não entram as parvoíces românticas com que as esquerdas europeias gostam de se entusiasmar.

 

Certamente que Obama não deixará de dar uns toques à esquerda. Fechará Gunatánamo, dará prioridade ao Afeganistão em detrimento do Iraque, o que nem está mal visto. As esquerdas mundiais terão assim argumento para continuar a defender o homem. Agora, as grandes coordenadas da política externa e de defesa americana, tirem o cavalinho da chuva. Serão as mesmas porque são constantes.

 

Se eu fosse americano teria votado McCain. Apesar de tudo prefiro os originais. Mas nunca me preocupei excessivamente com a previsível vitória de Obama. Bom negócio mesmo nestes tempos de crise deve ser o dos lenços de papel. Conheço muita gente com muita lágrima para secar com os primeiros passos de Obama. Em todo o caso, num certo sentido, todos podemos dormir um pouco mais tranquilos. E com uma enorme vantagem: Jon Stewart terá material de sobra para mais quatro anos de Daily Show, que não tenciono perder, até para arejar do seguidismo que por cá vigora em relação ao poder.

(publicado na edição de hoje do Semanário)

(Foto)

 


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publicado por Jorge Ferreira às 00:19 | link do post | comentar

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